Dia do Nordestino - 08 de Novembro

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eu, a cama e Nobelina - Zé Laurentino

Eu, a cama e Nobelina  
Zé Laurentino


Seu moço vou lhe contar

uma historia pequenina,

historia de um casamento

que tive com a Nobelina.


Nobelina, meu patrão

morava parede e meia

no sítio donde eu morava

não era lá muito feia,

também não era bonita,

mais tinha o corpo roliço

e os óios da mulata

parecia ter feitiço.


O corpo de Nobelina

endoidava qualquer macho

pois era fino no meio

porém muito grosso embaixo

a cintura da muié

era uma tentação

parecia inté que tinha

sido feita com a mão.


Para o nosso casamento

eu tinha feito um estudo,

a nossa casa pequena

mais tava pronta de tudo

desde a cama, o principal

ao troço mais miúdo.



Todo dia ao meio dia

eu encostava a enxada

mode feliz contemplar

nossa futura morada.


Em meio à mata serena

a casinha era pequena

mais tava bem arrumada

com cinco ou seis tamboretes

uma mesa, um petisqueiro,

uma banca, uma quartinha,

quengo, prato, candeeiro

e um coração de Jesus

de olhinhos bem azuis

que eu comprei no Juazeiro.


E oiava aqueles troços

que nem quem assiste um drama

pois tudo fica bonito

no tempo que a gente ama

mais entre os troços, patrão

um me prendia a atenção

era a danada da cama.


Eita troço abençoado,

de qualquer uma invenção

que o homi fez até hoje,

gravador, televisão,

telefone e telegrama,

pois quem inventou a cama

pra’ mim é o campeão.


Cama é o único objeto

que nunca causa acidente

da queda de uma cama

nunca vi ninguém doente.



Cama é sempre uma cama

seja ela fraca ou cara

cama de couro de boi,

ou cama feita de vara.

Cama coberta de linho,

cama coberta de esteira,

a cama silenciosa

e a cama estaladeira.


Cama que guarda segredo

por isso eu lhe quero bem

porque ela assiste a tudo

sem dizer nada a ninguém.


Quando eu estou doente

a cama é quem me socorre

na cama eu curo a ressaca

depois de um dia de porre

e nela a ressaca vai-se,

é na cama que se nasce,

é na cama que se morre.


De toda música do mundo

eu lhe digo sem fofoca

para mim a mais bonita

é a música que a cama toca.


Aquele seu rangidinho

só rangido de porteira

faz a gente adormecer

nos braços da companheira.


Nem os baiões de Gonzaga,

nem o acordeon de Noca

toca musica mais bonita

do que o que a cama toca.


Mais eu vou deixar a cama

minha companheira alpina

pra’ falar do casamento

que eu tive com a Nobelina.



Tudo pronto, tudo certo

casei-me com a morena

passado uns cinco ou seis meses

nós fomos pra’ uma novena

e a novena era na casa

de seu Antonio Sibiu

por motivo da chegada

de um seu filho Dario

que há quatro ou cinco dias

tinha chegado do Rio.



Quando nós chegamos lá

já tinha gente demais

a novena era do santo

mais veja o que o povo faz

em vez de falar do santo

só falava no rapaz.



Mais como ele tá gordo,

como ele voltou bonito

era a conversa das moças

mas achei muito esquisito

só porque a Nobelina

ao falar com o rapaz

sustentou na sua mão

que quase não solta mais.



Eu fiz que não tava vendo

fui beber no botequim

dei uma cordinha a ela

porque muié é assim,

quando tá com a corda toda

mostra se é boa ou ruim.



E quando eu voltei, seu moço

já fui vendo o carioca

grudado com a Nobelina

e os dois numa fofoca

que uma cachorrada daquela

só vi na casa de Noca.



A essa altura, patrão

me deu sono pra’ dormir

fui convidar Nobelina

porém ela não quis ir

tive que voltar sozinho,

sozinho na madrugada

e nessa noite doutor,

a cama não tocou nada.



Mais não tem nada seu moço,

eu não vou lamentar, pois

Nobelina foi-se embora

eu arranjo outra depois,

quem é forte não reclama

mesmo porque minha cama

só sabe tocar com dois.

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